Eu te enxergava. Você tem o costume de virar o rosto e disfarçar a conversa com qualquer coisa não faça o menor sentido.
Sempre soube o que você sentia mesmo em silêncio. Mas queria ouvir. Precisava acreditar. Tem dia que o corpo todo treme e o mundo me esmaga, as janelas parecem longe demais, os gatos me olham preocupados. Você também me enxerga.
Ainda assim eu sento no braço do sofá encarando o casal do apartamento da frente enquanto fumo um cigarro que já prometi quatro vezes (só no último mês) que não ia mais fumar. Também não aprendi a pontuar. Nada. Evito falar. A coisa não tem volta, sabe? O cérebro guarda tudo e revive mais de mil vezes e tudo o que a gente fala e ouve, gruda.
Igual nossa música.
Igual o cheiro de cigarro no cabelo.
Igual o cheiro dos seus dedos depois de percorrer meu corpo.
Igual o gosto do seu corpo nos meus beijos.
Então evito. Para não estragar nada. Mas ainda assim, é comigo que você está lidando. Eu me conheço. Muito mais do que eu gostaria. É que faz as janelas apertarem. Os gatos se aninharem. É o que te faz ficar?
Tive uma conversa com uma amiga que as pessoas realmente gostam da gente pela impressão e pela referência que passamos para o mundo. É possível gostarem da gente pela gente? Se fossemos um monte de fumaça, sem estilo, sem presença, sem emprego, sem nada. Ainda assim você ficaria? Sei que vai dizer que sim. Mas. Não sei.
As coisas se repetem no meu cérebro como um carrossel. Eu não relaxo. Respira comigo. Eu não relaxo. Você enxerga? Você vê?
Eu não.