Ninguémais.

Abriu o farol e eu fiquei na faixa, não queria atravessar, nem mudar o rumo.
Quis só observar. O cinza, os carros, as pessoas que nem se olham.
E vi que a importância de quem não se importa não passa batida pelos pés daquele cara sujo sentado no ponto de ônibus.
Descobri mais tarde que ele não estava só de passagem, estava preso ali, sem bilhete, sem vontade, sem comida.
O que ele queria era só um olhar, um pisar mais perto que o percebesse. Que o notasse sem o costumeiro pedido de “Por favor retire-se.”
As buzinas começaram a me expulsar dos meus pensamentos, recomecei a andar e percebi que ele sorria pra mim e dizia que “a vida é dura menina, mas é minha…e de mais ninguém.”
De mais ninguém, repeti, enquanto sorria de volta.

Um comentário sobre “Ninguémais.

  1. “Tá relampiano
    Cadê neném?
    Tá vendendo drops
    No sinal prá alguém”
    (Lenine/Moska)

    “Vi ontem um bicho
    Na imundície do pátio
    Catando comida entre os detritos.

    Quando achava alguma coisa,
    Não examinava nem cheirava:
    Engolia com voracidade.

    O bicho não era um cão,
    Não era um gato,
    Não era um rato.

    O bicho, meu Deus, era um homem.”
    (Manuel Bandeira)

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